O que aconteceu com Vandré, por Vandré

2 out

Geraldo Vandré é músico autor de “Disparada” e “Pra não dizer que não falei das flores” ou “Caminhando” . A primeira ficou conhecida na voz e interpretação de Jair Rodrigues, no Festival de Música Popular Brasileira, exibido pela Record, em 1966. O próprio Vandré cantou “Caminhando”, em 1968, no Festival Internacional da Canção, gravado no Maracanãzinho e exibido pela TV Globo, e conseguiu apenas o o segundo lugar, perdendo para Sabiá, de Chico e Tom. A música se tornou hino na boca dos movimentos contra a ditadura. Em dezembro do mesmo ano, com o AI-5, Vandré foi aconselhado por Dedé, então mulher de Caetano, a fugir. Ficou escondido na fazenda de Guimarães Rosa com a ajuda de Aracy, a viúva do escritor que havia morrido pouco tempos antes. Dali seguiu para o Chile e, em seguida, para a França. Vandré retorna ao Brasil em 1973, um ano após Gil e Caetano, e foi obrigado a gravar depoimentos em que afirmava que só gravaria canções de amor a partir de então. Desde essa data, pouco se soube acerca de Vandré. Eu soube que ele vivia em São Paulo e que diversas pessoas já haviam tentado entrevistá-lo e que ele sempre negava. Há pouco tempo procurava alguma informação sobre ele e vi o vídeo de uma aparição do músico em um bar, acompanhando o show de um militar que cantava “Pra não dizer que não falei das flores”. Havia boatos sobre sua loucura, palpites sobre o que os tais agentes da ditadura (gente da “polícia federal” segundo ele declara na entrevista abaixo) haviam feito realmente com ele. O fato é que o jornalista Geneton Moraes Neto finalmente matou o silêncio do mito Vandré. É uma entrevista triste, histórica e jornalisticamente excelente. Confira o vídeo no site da Globo

Ou assista no Youtube:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

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Seria

18 set

Seria muito mais fácil
Sou capaz de apostar, seria
Estava tudo no lugar
Sapato na caixa, sonho céu
Camisa no armário, amor nem havia
A caneta largada na gaveta dali nem sairia
Mas me expus ao mar e a onda veio

Sentiria muito menos
Sou capaz capaz de apostar, sentiria
Mas me sabendo molhado da água salgada, ainda assim
Me expus ao vento frio

Sabia, até, que aquilo bem não faria
Confesso, sabia

A maré baixou, onda não mais há
Nem vento, nem paz
Mas eu sabia
Confesso, sabia

Então, perguntas, “Por quê?!”
Meio constrangido te digo nada
Pois não há mais nada

Embalei o melhor de mim em uma caixa colorida
Um laço prendia suas partes e anunciava
Mesmo que pelo não dito
Que é ele guardião de um sentimento honesto
De um suspiro, de respirações ofegantes
De lembranças e projetos
Passados e futuros naquele presente
Que varou o mar e nunca mais vi

Ah, coração leviano
De fato fere aquele que tudo perdeu
Mas penso que talvez lá trás te diria
Bem por vez te diria:

– Não saiba de mim. Não me tenha lembrança. Devolve o que é meu e do meu peito. Assim será melhor.

Seria?

A voz que derruba barreiras

4 ago

Entrevista publicada na Caros Amigos número 140 de novembro de 2008

Murilo Roncolato, Gershon Knispel, Bruno Versolato, Luana Schabib

Foto: Lucas Bueno.
Texto: Murilo Roncolato e Gershon Knispel.

Amal Murkus, palestina e cidadã israelense, ao contrário da maioria dos palestinos não é muçulmana. Na terceira vinda ao Brasil para apresentar seu novo CD Na’na’ Ya Na’na’ recebeu Caros Amigos no hotel, em São Paulo. Nosso colunista Gershon Knispel, israelense contemporâneo do pai de Amal, viu-a crescer. Lembra que ela, assim como os poetas Mahmoud Darwish e Samih el Qasim, faz um importante papel de “porta-voz de seu povo, como representante da cultura palestina tão ignorada pelo resto do mundo”.

Foi na região montanhosa da Galiléia, no norte de Israel, vizinha de Síria, Líbano e Jordânia, que, segundo a Bíblia, nasceu Jesus Cristo, acontecimento testemunhado por três reis magos. Foi ali também que nasceu e cresceu Amal, em 1968, sob o testemunho do senhor e da senhora Murkus e dos seus companheiros do Partido Comunista de Israel.

A jovem cresceu convivendo com poetas, artistas plásticos e músicos. Isso porque sua casa era um grande centro de encontros de intelectuais que discutiam o mundo e formas de alcançar paz, especialmente depois da Guerra dos Seis Dias – que ocorrera apenas um ano antes do seu nascimento. Nasceu ouvindo seu pai conversar com árabes, israelenses, drusos, muçulmanos, cristãos e judeus; todos membros do partido. A pluralidade mostrou-lhe um mundo além da sua pequena Kafr Yassif.

Grávida morreu por causa do muro

Num país de costumes familiares rígidos, Nabil Murkus, importante promulgador de atitudes reformistas visando a liberdade da mulher árabe, educador, ex-prefeito da cidade e pai de Amal, atendeu ao pedido da menina e, fugindo à regra comum daquela sociedade, mandou-a para Tel Aviv estudar teatro, de onde saiu cantora. Tornou-se então música profissional e mulher feita, com 40 anos e muito bonita, além de militante comunista, católica e palestina vivendo em território ocupado pelos israelenses pós-67. Sua formação política, herdada da família, logo se fez querer transparecer nas suas letras.

“A terra palestina ocupada é ignorada, assim como os direitos daqueles que ali vivem. Minha voz é minha arma para contribuir com a luta de nosso povo”, diz a cantora.

Sua politização se faz visível já na primeira música que cantou, aos três anos: We shall overcome (Venceremos), famosa na voz da cantora de folk norte-ameicana Joan Baez.

“A letra fala muito da minha esperança. Era para que nós pudéssemos vencer a discriminação, a Guerra: ‘nós andaremos de mãos dadas’, ‘nós viveremos em paz um dia’, ‘nós seremos todos livres’”.

No início de sua carreira, Amal tentou fazer uma seleção de canções originais palestinas, por não serem comerciais e por não terem estado disponíveis para a maioria do povo palestino por causa da ocupação e da guerra. Para isso foi atrás de poetas jovens da sua região e encontrou pessoas como Mahmoud Darwish, Tufic Zaayad e Samih El Qasim. Também foi buscar em canções libanesas, egípcias e árabes algo que contivesse a essência daquilo sobre o quê queria cantar: o sonho do povo palestino.

“Sonho que acabe a ocupação, que termine essa humilhação e que derrubem esses 300 km de muros de 8 metros de altura que dividem famílias inteiras. O artista plástico Suliman Mansur, que representou a palestina na Bienal de 2002 em São Paulo, não consegue ir até seu ateliê, o que normalmente demoraria 10 minutos, por causa dos muros. Às vezes as crianças não conseguem chegar até a escola por causa desse labirinto, têm que dar uma volta de horas para o mesmo percurso. Esse muro separa palestinos de palestinos. Antes de eu vir pra cá, uma mulher grávida morreu porque não conseguiu chegar até o hospital por causa dessas barreiras. Eu sonho para que exista uma solução para os refugiados que deixaram suas terras e não sabem o quê fazer da sua vida agora, além da libertação de 11.000 prisioneiros que, na sua grande maioria, nem passaram por tribunal”.

Se pisar em país árabe, não volta

A cantora foi muito discriminada em seu próprio país e, devido a sua ascendência, boicotada severamente pelo Estado, pelas gravadoras e o público. Mulher de personalidade forte, ignorou essas barreiras e arrumou um jeito de produzir e vender seu CD de forma independente. Foi o que fez e deu certo. Já está no terceiro CD e possui uma página de compartilhamento de suas músicas pela internet. Isso resolveu o problema de censura de boicote:

“Com a internet e a facilidade de se reproduzir CDs, ninguém pode parar mais as músicas”.

Amal Murkus consegue assim estabelecer um diálogo entre os seus conterrâneos com os palestinos expatriados – que vivem nessas condições há 60 anos – e o mundo todo. Isso apesar das dificuldades para sair em turnê. Ela, por exemplo, não pode ir para nenhum país árabe. Caso desobedeça sua entrada para Israel seria vetada.

Mas Amal não é a única, como diz Gershon.

Nenhum judeu contrário à ocupação escapa. Israelenses judeus cineastas, como Amos Gitai, Riklis e Julio Mer; poetas que estão engajados contra a ocupação, como Nathan Zach, Yitzhak Laor. Mesmo o maestro Daniel Barenboim que, junto com professor Edward Said, já falecido, formaram uma famosa orquestra composta de jovens músicos palestinos e israelenses estão dando concertos em Berlim, Paris, em São Paulo, em Ramallah, mas em Israel estão proibidos.

“Vou continuar minha luta”

Amal viu como a imprensa ocidental noticia o conflito que seu país enfrenta. Acusa a mídia e as agências de notícias de sofrerem influencia dos EUA, “e estes estão por trás de Israel”.

Amal Murkus diz que não deixará de sonhar, mas sabe que para tornar este sonho concreto muita coisa depende. O governo israelense precisaria entender que fazem parte do Oriente Médio e que não fazem parte do mundo ocidental. Sabe também que muita gente tem interesses econômicos para que essa guerra nunca termine. Ela adianta ainda que o primeiro passo seria a desocupação dos territórios. Apesar da situação não parecer boa, pelo o que tem visto, ela acha que grandes mudanças estão ocorrendo ao redor do mundo, trazendo novas esperanças.

“Eu estou cheia de esperança. Eu vou continuar meu caminho com a minha luta, mas eu acredito na nova geração. Meu filho tem 18 anos, e ele vai continuar também. Eles merecem um futuro melhor”.

A resistência do cabelo afro

16 jul

crédito: labfoto/UFBA

Murilo Roncolato


Muito mais do que simples estética, o cabelo, simbolicamente, representou para os africanos a sua própria identificação. O estilo de cabelo definia suas origens geográficas, a que culto religioso pertenciam, seu estado civil, etc. Raul Giovanni, em Cabelos de axé: identidade e resistência, escreve que “os penteados sempre representam conceitos de beleza próprios de seu momento histórico, determinando tendência de uso que também podemos chamar de moda.”

Quando trazidos para o Brasil, os africanos mantiveram seus cabelos que, além de todas as suas significações, passaram também a ser vistos como uma forma de resistência cultural. A discriminação, ao longo do tempo, fez com que muitos negros quisessem alisar ou raspar seus cabelos, além de terem buscado diferentes formas para embranquecer sua pele, para serem mais bem aceitos na sociedade dominada por uma cultura estética branca. Essa concepção mudou com o surgimento de um movimento chamado black is beautiful (o negro é lindo) na década de 1960 nos EUA, e de grupos como o Movimento Unificado Negro, MNU, em 1978, no Brasil.

É nesse contexto que surgiram os salões de beleza especializados em cabelo afro, que funcionam até os dias de hoje. Um exemplo é o Duza Cabeleireiros, que se instalou no final da década de 1970 no subsolo da Galeria do Rock – repleto de artigos para hip-hop, colares, bermudões, salões de beleza afro, costureiras de bonés, lojas de CDs –, no centro de São Paulo, e que recebe, ainda hoje, uma forte demanda de clientes. Sobre o início dos salões, José Amilton, ou simplesmente Duza, lembra: “Você vinha de sábado nessa galeria, tinha fila da rapaziada negra esperando para fazer seu cabelo e ir para o Palmeiras curtir as festas de samba rock, musical dançante, as quais existem até hoje”.

Festas como essas foram também fundamentais para a adesão completa dessa nova noção de que o cabelo afro, os costumes, a pele, seu passado, a estética negra são belos à sua maneira, e que, ao contrário do que se dizia, não eram inferiores a nada e a ninguém. Nas noites dançantes costumavam acontecer concursos, como, por exemplo, o que escolhia os mais estilosos negros e negras da festa. Para conquistar esses prêmios, os salões, como o de Duza, foram fundamentais.

Símbolos da resistência

O cabeleireiro especializado em corte afro conta que começou a entrar “nesse mundo” quando era pequeno e ouvia música black, soul. Era a época de James Brown, Lionel Richie e Commodores, e, conseqüentemente, do cabelo no estilo black. Depois veio Michael Jackson com seu cabelo cacheado e Duza começou a fazer o que na época se chamava amaciamento – hoje seria o relaxamento – nos negros que queriam ficar parecidos com o ídolo. Depois vieram as evoluções das tranças, cada vez evoluídas, como os alongamentos, apliques. Além do dreadlock, eternizado pela figura do músico jamaicano, Bob Marley e do movimento rastafari.

As mais diferentes maneiras de se pentear o cabelo afro, que costumavam informar onde o sujeito havia nascido, se era casado, se gozava de um cargo respeitado, sua tribo; agora designa, ainda que com possibilidade de erro, a que “tribo” – urbana – do século XXI ele pertence. Exemplo disso é Tiago Martins, cliente de longa data de Duza, que, segundo ele, por ter tomado consciência da situação negra e conhecido a história de ícones como Malcolm X, Zumbi, Steve Biko, e aderido ao movimento negro, adicionou ao seu visual um black power imponente.

“O Tiago usa o black – exemplifica o cabeleireiro – porque, hoje, o rapper usa lá uma trança; ele, por gostar de black, a música, usa um black power. É meio que para dizer ‘eu não sou um hip-hop, eu não sou rapper, eu não sou qualquer outra coisa, eu sou um black’”.

Tiago esclarece o seu estilo, dizendo que seu cabelo antes de ser uma questão cultural, é uma questão política. “O cabelo black power é uma afronta a essa cultura burguesa, a essas novelas que passam por aí. Eu mesmo me afirmei negro, deixei meu cabelo crescer e você vê que não é uma questão só estética, é uma questão política, está tudo envolvido. Isso é para as pessoas pensarem. O nosso visual é um tipo de protesto cultural”.

Mas afinal, qual é a importância dos salões e de todos os cabeleireiros afro que se mantêm firme até os dias de hoje? E de Duza? Tiago responde: “O Duza e toda a galera da região das galerias estão aqui para não deixar o movimento morrer. Nossa cultura Black, hip-hop, o samba, o soul, o funk sobrevive nos dias de hoje graças a pessoas como eles. Eles são o símbolo de resistência”.

Incêndios em favelas (II)

5 jul

Crédito da imagem: eBand

Por Murilo Roncolato

[dezembro de 2009]

Em janeiro, cerca de 200 pessoas, até então moradores de uma favela na Vila Prudente, zona leste de São Paulo, ficaram desabrigados. Em agosto, o mesmo aconteceu com outros ex-moradores de um terreno baldio próximo à Cidade Tiradentes. Em outubro quase 1200 pessoas da Favela Diogo Pires, no Jaguaré, não tinham mais nada para chamar de casa. Mês passado, 40 barracos em Paraisópolis – segunda maior favela da capital – e um menino de sete anos em outra favela, essa em Mauá, foram também carbonizados.

Esses são alguns poucos exemplos da realidade de uma parcela da sociedade que corre constante risco de ter suas habitações destruídas por incêndios. Especialistas apontam que a estrutura dos barracos, os “gatos” – armações clandestinas em redes elétricas–, a alta densidade populacional e a falta de preparo da população residente são as principais causas para essa vulnerabilidade.

No Brasil, em 2004, foram registrados 137.779 focos de incêndios. Na cidade de São Paulo, segundo dados do Corpo de Bombeiros, são registrados cerca de 800 incêndios por ano na cidade de São Paulo. Essa taxa se mostra alta quando comparada a outros estados, como o Rio de Janeiro, que registrou 251 incêndios em 2008 e 262 até novembro deste ano. Só em favelas e barracos, São Paulo contabilizou, em 2003, 190 ocorrências, uma alta de 13,7% em relação há 10 anos (1993, com 167 ocorrências).

A arquiteta Ana Paula Bruno em sua tese de doutorado analisa as causas de incêndios em favelas e estratégicas administrativas para diminuí-los. Pesquisadora do assunto desde sua pós-graduação, sobre as diferenças Rio-São Paulo, Bruno rejeita que a maioria das favelas paulistanas seja de madeira, o que seria o principal fator da diferença de São Paulo para as demais capitais. “São casos localizados ou de porções no interior de favelas maiores”, diz. “De qualquer forma, a hipótese principal é essa: que a severidade dos incêndios está associada a esse padrão construtivo”. A estudante da FAU acrescenta que o nascimento de muitas favelas é um fator ideal para o incêndio, já que, normalmente, iniciam-se construções em madeirite e só depois de consolidada, por um custo maior, substitui-se pelos tijolos.

Através de dados do Censo de Favelas da Superintendência de Habitação Popular (Habi/Sehab) de São Paulo constatou-se que entre 1987 e 1992, 213 favelas nasceram na capital paulista; e entre 1992 e 2002, mais 251. Além disso, outro problema é o adensamento populacional, marcado pelo aumento de casas e pessoas e a diminuição dos espaços escolhidos para alocar toda essa demanda. Em 1991, por exemplo, a variação da densidade populacional em São Paulo foi de 20 hab/ha (habitantes por hectare – 10.000 m²); em 2000, a média chegou a 370 hab/ha.

O coordenador Centro de Tecnologia do Hábitat do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT), José Carlos Tomina, no mesmo sentido, ilustra a situação das favelas atuais e diz que se nada for feito, a tendência é de apenas aumentar o número de ocorrências e mortes. “Do jeito que está hoje é impossível ficar. Os barracos de madeira ficam todos juntos, colado, lado a lado, é muito material combustível acumulado. Não dá para apagar fogo em favela. É muito difícil. O fogo quando para é porque há uma fileira de casas de alvenaria”. Dados do Corpo de Bombeiros apontam na mesma direção, e mostram que os incêndios em favelas agravaram-se em 228% e 240% em relação aos incêndios em edificações não faveladas entre 1993 e 2003.

Além disso, as ruas, muito estreitas, impossibilitam a passagem dos carros de bombeiros, a distância entre as favelas (muitas de difícil acesso) aumenta o tempo médio de atendimento e a falta de hidrantes nas ruas não-urbanizadas deixa sem recursos os profissionais do combate ao fogo. Carlos Roberto Almeida França, mestre pelo Instituto de Eletrotécnica e Energia (USP), em pesquisa, constatou que “54% dos 2.570 bairros da capital não apresenta rede de hidrantes”.

Para e vice-coordenadora do grupo NUTAU (Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da FAU/USP), Rosária Ono, em que pese a existência de todos os problemas existentes, faltam ações por parte do poder público. “Se não forem criadas políticas públicas e forem executadas ações sistemáticas de segurança contra incêndios específica para esse tipo de ocupação o quadro tende a se manter”.

Além da maior vulnerabilidade a focos e a propagações, o contexto estrutural das favelas e a falta de formação de perícia especializada, na opinião da arquiteta Ana Paula Bruno, atrapalham o descobrimento das causas que levaram ao incêndio. “Apenas uma minoria é de fato conhecida, é quando há uma evidência explícita do motivo ou testemunhas presenciaram o início do fogo”, diz Ana Paula. Para os demais casos as informações são normalmente coletadas a partir de indícios no local ou através de relatos nem sempre confiáveis. “Faltam pessoal especialista e laboratórios para diagnosticar com precisão as causas”, conclui.

Dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública apontam que dos 137.779 incêndios ocorridos no Brasil, apenas 32.909 (24%) têm causas registradas. Destes, 10.655 (32%) têm causas indeterminadas e 6.661 (20%) não foram apurados. Em São Paulo, entre 2001 e 2003, 65,32% dos incêndios foram de causa desconhecida. Entre as sabidas lideram “instalação elétrica inadequada” (com 40,91%); “ato incendiário” (28,79%) e “displicência ao cozinhar” (8,08%). “Prática de ações criminosas”, que foi um dos primeiros motivos não-oficiais apontados, inclusive pela presidente da Sociedade Amigos do Jaguaré, Maria Gema Martins, como causa do desastre na Favela Diogo Pires, atingiu 3,03%.

Brigadas populares

Na Política Nacional de Defesa Civil consta como uma de suas metas a necessidade da Secretaria Nacional (SEDEC) de incentivar a criação dos Núcleos de Defesa Civil (Nudec) e fortalecer as Comissões Municipais (Comdec). O documento diz que quando há algum desastre, como um incêndio, a maneira mais eficaz de amenização de danos é através do treinamento da população e da sua consequente rápida atuação.

A secretária nacional de Defesa Civil, Ivone Valente, assumiu que a meta de criar mais de 2.500 Comdecs pelo Brasil ainda é algo concreto. “No papel há mais quase 4.500, mas de Comissões Municipais em atividade constante nós contamos com apenas 1000. É um desafio a ser encarado pela minha gestão”.

José Carlos Tomina coordena com pesquisadores do IPT e de outros institutos o programa “Brasil Sem Chamas”, inspirado no estadunidense “America Burning”. A idéia nasceu da necessidade de se “conhecer melhor o segmento de segurança contra incêndio no Brasil” e para se poder criar um Marco Legal definitivo e abrangente. Primeiramente o grupo fez uma séria de estudos (2005-2007) a fim de analisar as questões mercadológicas, as deficiências, demandas, necessidade de formação e qualificação profissional, normalização dos produtos e serviços. Atualmente, atravessando a segunda etapa do projeto, o objetivo é construir proposições para solucionar os problemas identificados.

Além desses aspectos, o “Brasil Sem Chamas” oferece treinamento. Tomina, seguindo à risca as diretrizes da Política Nacional de Defesa Civil, vem criando brigadas compostas apenas por moradores de favelas visando a diminuição de ocorrências e a gravidade dos estragos. “Incêndios graves como foi o no Jaguaré, da Favela Diogo Pires, poderia ter sido evitado se houvesse treinamento. Pode parecer polêmica gratuita, mas não é, é fato”, diz Tomina. O pesquisador garante que das favelas em que se formaram brigadas nunca mais houve incêndios graves e a taxa média baixou consideravelmente.

O Projeto de Lei 558/01 da Câmara de São Paulo instituiu o Programa de Prevenção aos Incêndios nas Favelas do Município que visa tornar obrigatórios a educação da população e seu treinamento. Fatores que, segundo Tomina, são fundamentais para uma boa gestão de riscos nos bairros, principalmente em favelas. “O poder público deveria ser mais atuante nesse sentido. Agir para a prevenção e ter boas condições para responder aos desastres. Tem que incentivar pesquisa e treinar pessoal. Antes que tudo vire pó”, acredita Tomina.

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Incêndios em favelas (I)

5 jul

crédito da imagem: portal R7

Por Murilo Roncolato

[dezembro de 2009]

Ex-moradores da favela Diogo Pires, localizada no Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo, começam a reconstruir seus barracos após o incêndio do dia 11 de outubro que atingiu quase 300 casas, deixando desabrigadas cerca de 1.400 pessoas. Hoje já há por volta de 15 barracos recém-construídos com lascas de madeira, tocos e pregos. Moradores denunciam que um grupo de homens à paisana teriam invadido a favela no dia 9 de novembro e quebrado materiais de construção que seriam usado para outros barracos e derrubado cinco já finalizados.

Sidcley mora há um mês na Igreja do pastor Cláudio, próxima à favela. Ele conta que desde o incêndio não tem para onde ir com as duas irmãs e a mãe de 74 anos. Reclama da falta de assistência da prefeitura e diz que ela ofereceu pagar 30 meses de aluguel para famílias com mais de quatro filhos e com custo mensal de até R$ 300. “É impossível achar um aluguel desse. Aqui no Jaguaré o mínimo que tem é de R$ 500 e eles não aceitam essas famílias com seis, sete filhos. Onde vai botar essas crianças?”, vocifera o morador, nascido em Pernambuco e residente em São Paulo há oito anos.

Logo após o incêndio, a maioria das famílias ficou em abrigos provisórios ou, temporariamente, em casas de parentes. Sem alternativa, pessoas como Seu Tonho, foram para as ruas e, hoje, retornando à favela, juntam madeirites e pregos e voltam a “bater toco”, segundo as palavras de Seu Tonho. “Se eu tivesse canto pra ir eu ia”, conta, “mas emprego o cabra não tem, a prefeitura não deu nada, vou entrar aqui pra dentro mesmo. Não tem jeito”.

A prefeitura, através da assessoria, lembrou que na época a Defesa Civil ofereceu ajuda para os desabrigados e a prefeitura enviou uma equipe de assistentes sociais servir comida, dar abrigo provisório e colchão para as famílias. Afirma que ofereceu R$ 5.000 para as famílias que se comprometessem a sair da favela, que alegam ser propriedade de um empresário paulistano; além da proposta do aluguel de 30 meses, que obteve a adesão de cerca de 50 das 280 famílias.

“5.000 conto, com esse dinheiro a gente faz o que hoje em dia? Não dá nem pra três mês (sic). Estamos em 10 aqui nessa sala com uma cama de solteiro e um sofá, são 5 crianças, o esgoto passa aqui na porta de casa, essa coisa preta aí é tudo porcaria que os moradores tem que fazer aqui mesmo, né? Não dá”. As três amigas: Rosa, Lisete e Valmira, em coro, listam os problemas enfrentados e lamentam, desesperançosas, que o dia de serem transferidas para um apartamento da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) ainda está longe. A prefeitura fez marcas com tinta preta nas “paredes” dos barracos numerando as casas e os setores. O de Rosa, por exemplo, é o 19. Há uma lista de espera, enquanto, as mulheres vivem com seus filhos “do jeito que dá”.

A prefeitura, através da assessoria, disse que enviará assistentes sociais para auxiliar os moradores, apesar de reprovar a reabitação da favela . Ela não comentou o caso dos homens à paisana que, segundo Sidcley, Seu Tonho e outros moradores, teriam entrado na favela na manhã da terça-feira (10/11) e ameaçado pessoas e quebrado vários materiais novos de construção. “Veio um cara da prefeitura pela manhã ver como é que estava a gente, aí a tarde vieram esses caras. Eles ficavam gritando depois que da próxima vez eles iam voltar com a Tropa de Choque da PM”, garante Lisete, de 19 anos, mãe solteira de dois filhos.

Aqui haveria um título

1 jul

Por Murilo Roncolato

Se em um tempo eu fosse contar a história do dia em que os representantes do povo do meu país, alocados em uma casa bizarra num planalto extenso e seco, fossem votar pela obrigatoriedade da alegria eu diria algo assim:

Num dia qualquer de agosto, os parlamentares entrariam por uma fenda abaixo da tal casa, sob uma tabuleta com as palavras “garagem oficial” em seus carros negros, assim como os vidros. Subiriam por um elevador espaçoso e vigiado, parariam no quarto andar e deslizariam por um carpete verde de aparência limpa, graças às 122 faxineiras que ali trabalhariam. Eles buscariam suas salas confortáveis, dariam ordens aos vários assessores que, desesperados, não conseguiriam resolver nada do que queriam com o chefe. Um dos deputados entraria no seu escritório, fecharia a porta atrás, sentaria na poltrona de couro folgado e aliviado, tiraria os sapatos e olharia para o quadro dos três filhos que estariam andando naquele momento em algum corredor de escola em Belo Horizonte, despedindo-se dos amigos para encontrar a mãe na saída, que os levaria para casa: a da mãe, pois o pai quando fosse, ficaria em um hotel próximo à Lagoa da Pampulha.

Esse “um” apertaria alguns botões no telefone, de tamanho nada século 21, e diria: “Gonçalão, viu mais essa agora? (…) Os caras da bancada vão ficar uma fera senão der tempo de votar a desoneração do milho hoje por culpa da tal ‘lei da felicidade’. (…) Que horas? Certo. Vamo ligeiro. Na rampa então. Abraço”. De outra sala, um homem robusto e desajeitado bateria o telefone no gancho, colocaria seu terno de risca de giz, comprado por uma de suas três mulheres. Essa “uma”, no instante da aquisição, estava em Nova Iorque fazendo compras enquanto o marido se reunia com empresários num prédio obtuso na Avenida Paulista em São Paulo.

O plenário já acumularia dezenas de homens bem trajados e algumas poucas mulheres engomadinhas em suas roupas que sequestrariam toda sua feminilidade. O relator iniciaria o seu discurso: “É com muita alegria que anuncio hoje ser um dia histórico…” e encerraria “…não dinheiro, não terra. O povo brasileiro clama, sob a defesa inegociável do Estado, pelo direito à felicidade”. Cães raivosos bradariam pedindo “a palavra” – lamento não poder explicar a que palavra eles se referiam, foram tantas as do relator, como escolher uma? Seria o caos.

Em algum desses minutos que um homem de aparência simples, trajando um macacão azul com uma logomarca no peito, com uma vassoura na mão arrastar-se-ia triste para um microfone cinza e frio. O sujeito bateria duas vezes no cabeçote do aparelho. “Alô? Som! Som! Com licença, mas eu tenho uma pergunta para vocês, digo, os senhores. Vocês vão botar no livro das leis que a gente é obrigado a ser feliz e que vocês vão assegurar isso, não é? Vocês me desculpem, mas isso não vai dar certo não. Eu moro na Ceilândia, numa barraca de raspa de madeira, para não pagar aluguel. Isso porque do que eu ganho aqui eu pago três pensões. Namorei, engravidei e abandonei todas. tudo porque caçava a tal felicidade. Vou no boteco ver os amigos todos os dias e volto bêbado para o meu barraco. Dia seguinte, tudo de novo. Em uns domingos a gente junta o pessoal na laje do Brejão e mete a mão num pandeiro, come carne velha, bebe até cair e sai por aí mexendo com as menininhas. Tem nego aí que acha que felicidade é uma coisa só. Eu sou feliz do jeito que eu sou, a gente tem é que se adaptar, senhores. O segredo é que você nunca está feliz, a felicidade sempre está um palmo arriba da gente no escadão da vida. Por isso não fiquem querendo obrigar ninguém a ter a felicidade que vocês supostamente tem. Até porque muitos aí já desistiram de se adaptar e vivem fingindo. Adianta? Ter terno, carro bacana, dinheiro e ficar aí fingindo que é feliz? Pela última vez: deixem a minha felicidade em paz”. A proposta seria derrubada e os parlamentares, abandonariam o plenário e não votariam o negócio do milho naquele mês.

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